quarta-feira, 21 de novembro de 2018



Uma filha de Periperi




A protagonista dessa história é Magda Maria dos Santos, uma afrodescendente filha de Periperi como ela se intitula. Nascida em junho de 1956 e hoje com seus 62 anos de idade é uma das muitas Marias “filhas de Salvador” que carrega em si a herança da miscigenação de povos e culturas que constitui o Brasil, em seu coração e em sua mente memórias e saudade de outros tempos, e em seu peito o orgulho de ter presenciado a construção da história do lugar em que pertence.


Guerreira desde sempre, já na sua infância começou a lutar por sua sobrevivência.

“Eu tinha seis anos quando minha mãe adoeceu e eu comecei a ir com meus irmãos para vender carvão para trazer comida para casa. Cessávamos em uma peneira para vender limpo. Se meu pai soubesse que tínhamos vendido sujo ele batia na gente. ”

Ela relata como foi sua infância e de seus 9 irmãos, mas que apenas dois conviveu junto.

Em uma rotina de trabalhos informais e domésticos enquanto ajudava a cuidar da mãe doente, brincadeiras de criança e escola não tiveram prioridades. Quando aos nove anos de idade perdeu sua mãe para uma doença desconhecida, as coisas se tornaram mais difíceis. Ainda assim, ela não desistiu e aos 13 anos pediu a uma diretora que a deixasse estudar ‘em sua escola’, dessa forma ingressou no Colégio Estadual São Domingos, uma pequena escola onde iniciou sua vida escolar. Não foram muito anos de estudo, apenas três, mas durou tempo suficiente para ela se alfabetizar e hoje ser feliz por não ser analfabeta.

Durante toda sua infância e parte da adolescência morou em Periperi, aos dezesseis, acompanhando seu pai, mudou-se algumas vezes para Valéria, Coutos e outros bairros próximos do subúrbio ferroviário. Com dezoito anos tornou-se órfã de pai e antes que percebesse, sua infância havia passado e já vivia a vida adulta.

Casou-se cedo, aos 23 anos, mais precedendo esse fato, teve seu primeiro filho, aos 21 anos. Seu primogênito não vingou e faleceu ao nascer. A dor da perda e a tristeza foram grandes, mas superada pela chegada de outros filhos, seis exatamente, os quais hoje se orgulham se serem filhos de quem é, uma mulher forte e guerreira que dedicou seus dias e noites para educar e sustentar seus filhos, enfrentando as inúmeras dificuldades.

Ainda hoje carrega em suas mãos as marcas feitas por seus instrumentos de trabalho. Em pé na beira de um fogão, foram centenas de mulheres que passaram por sua sala, sentadas em uma cadeira enquanto ela espichava seus cabelos com utensílios de ferro aquecidos diretamente no fogo. Esse foi por muitos anos a principal fonte de renda de sua família, porém sempre foi arranjado tempo, pois havia necessidade, e assim, atividades como lavar roupas de ganho, fazer e vender geladinho e pipoca, foram alguns dos muitos trabalhos informais que ela realizava para ajudar seu marido e sustentar a casa após a morte dele.

Que sua vida foi dedicada a cuidar da família, não há dúvidas. Quando criança, da sua mãe, quando jovem, dos seus filhos e hoje, quando na sua melhor idade, de quem precisar de cuidado.

De onde veio


Para conhecer melhor mais sobre a história de Periperi, ninguém melhor para saber do que quem cresceu com ele. E para isso, conto com a colaboração de minha avó ou Dona Magda, a senhora que faz cabelo como muitos a conhece.


Ela morou por poucos anos, até seus dezesseis anos, mas foi tempo suficiente para acompanhar de perto mudanças significativas no desenvolvimento do bairro.

Em uma conversa agradável, em que me orientei em uma entrevista semi-estruturada, ele relembrou com saudades do tempo em que viveu no bairro, momentos bons e ruins, os quais fizeram parte da construção de sua história.

“Eu nasci e me entendi por gente em Periperi, mas meu pai é filho de Santo Amaro da Purificação (...)” – ela se referi ao fato dele ser natural da cidade de Santo Amaro da Purificação. – “ (...) Ele mudou-se para cá ainda moço em busca de emprego. Ele era pataqueiro, fazia vários serviços diferente, trabalhava para ele mesmo. Tinha um pequeno gado para transporte e só depois se tornou empregado da Leste”. Ela narrou quando a questionei sobre como sua família chegou a Periperi.
Revivendo suas memórias ela contou que na sua infância, nas décadas de 50 e 60, o bairro já não era mais fazendas, porém também não era urbanizado, haviam algumas ruas e várias casas, algumas ainda de taipa.

“No fundo lá de casa passava um rio de água doce, o Rio Paraguari, ele cortava boa parte de Periperi e se encontrava com o mar, era possível pescar nele, mas depois foram aterrando para construir casas ao redor. Sabe aquele córrego que quando passamos de ônibus dá para ver? ” - Me questiona e eu assinto confirmando. “Então, hoje é só um esgoto a céu aberto, mas José meu irmão já pescou ali”. Ela comenta sobre o Rio Paraguari, o qual Periperi faz parte da Baia hidrográfica.
Aproveito o seu comentário referente a pesca e lhe pergunto sobre a atividade de pescaria do local. “Nunca foi muito grande nessa região, tinha alguns moradores que faziam, mas não era muito lucrativo”.

Sigo questionando-a como era a economia. “ As pessoas não tinham muitas condições (...)” – Refere-se a status econômicos dos moradores. – “(...) Muita gente trabalhava na Leste ou nas oficinas do trem. As pessoas não eram ricas, mas todos compravam seu pedacinho de terra, que era barato na época, ou moravam de aluguel, não é como hoje que tem esse negócio de invasão. Nessa época era tão bom e não tinha tanta violência. ” Sua fala é marcada por uma nostalgia de um tempo bom e ao mesmo tempo, demonstrava tristeza pela atual realidade de violência que atinge o bairro.

Diante de suas constantes citações sobre a Leste, a questiono sobre o que se trata e ela explica de forma rápida que era uma empresa responsável pelas ferrovias, que além de realizar o transporte de pessoas e outras coisas como cargas de mercadorias, também distribuía água para moradores ao redor.
“Ela ficava ali onde hoje estão as construindo os prédios da prefeitura. Não tinha nada que cercasse aquele terreno, mas todo mundo sabia que era deles e ninguém entrava. Ela ajudou muita gente. Foi muito importante para Periperi”. Relata sobre a Leste – Viação Férrea Federal Leste Brasileiro, uma empresa que após a intervenção do governo federal, em 1934, tornou-se responsável pela administração das Ferrovias baianas.


Pergunto-lhe como era o funcionamento desse trem. Ela declara que não era apenas um, como atualmente, eles tinham diferentes linhas, uma que finalizava em Aratu e outra que ia até outras cidades da Bahia como Alagoinhas. Ela ressalta ainda que apesar desse transporte ser coletivo, não ajudava muita na mobilidade de quem morava em Periperi e nos bairros próximos. Ela afirma ainda que, só houve uma maior mobilidade quando foi construída a Avenida Afrânio Peixoto. “Só depois dessa avenida que a suburbana começou a crescer, ficou mais fácil chegar até o centro da cidade, pois antes tinha ônibus, mas não eram muitos, com essa avenida aumentou a quantidade de ônibus que passavam e iam a mais lugares. Depois disso começou a chegar mais gente para lá”. Ela fala referindo-se ao bairro.

“Eu não demorei muito lá depois disso. Me mudei umas três vezes e voltava para lá, depois daí só volto lá poucas vezes quando vou fazer algo no comercio de lá, ir no medico ou no banco”.

Para concluir a entrevista, peço para que ela diga sua percepção sobre como está o bairro hoje em comparação aos anos em que viveu lá, e como ela imagina que estará daqui a dez anos. “Eu acho que cresceu muito e isso é muito bom, hoje as pessoas tem tudo o que precisa perto, água, saneamento básico, lojas. É muito mais fácil que antigamente, mas a violência é terrível e nem se comparar ao que era. E eu não sei se consigo imaginar muito com pode ser o futuro de Periperi. O jeito que tudo foi construído, um em cima do outro, não dá para crescer mais. Tem casa e construção para todo lado, para construir algo novo teria que derrubar alguma coisa, pois não tem mais lugar”. E com essa percepção de quem acompanhou os primeiros passos de Periperi e hoje não sabe mais onde ele pode chegar que concluímos a nossa entrevista.