Uma filha de Periperi

A protagonista dessa história é Magda Maria dos Santos, uma afrodescendente filha de Periperi como ela se intitula. Nascida em junho de 1956 e hoje com seus 62 anos de idade é uma das muitas Marias “filhas de Salvador” que carrega em si a herança da miscigenação de povos e culturas que constitui o Brasil, em seu coração e em sua mente memórias e saudade de outros tempos, e em seu peito o orgulho de ter presenciado a construção da história do lugar em que pertence.
Guerreira desde sempre,
já na sua infância começou a lutar por sua sobrevivência.
“Eu
tinha seis anos quando minha mãe adoeceu e eu comecei a ir com meus irmãos para
vender carvão para trazer comida para casa. Cessávamos em uma peneira para
vender limpo. Se meu pai soubesse que tínhamos vendido sujo ele batia na gente.
”
Ela relata como foi sua infância
e de seus 9 irmãos, mas que apenas dois conviveu junto.
Em uma rotina de
trabalhos informais e domésticos enquanto ajudava a cuidar da mãe doente,
brincadeiras de criança e escola não tiveram prioridades. Quando aos nove anos
de idade perdeu sua mãe para uma doença desconhecida, as coisas se tornaram
mais difíceis. Ainda assim, ela não desistiu e aos 13 anos pediu a uma diretora
que a deixasse estudar ‘em sua escola’, dessa forma ingressou no Colégio
Estadual São Domingos, uma pequena escola onde iniciou sua vida escolar. Não foram
muito anos de estudo, apenas três, mas durou tempo suficiente para ela se
alfabetizar e hoje ser feliz por não ser analfabeta.
Durante toda sua infância
e parte da adolescência morou em Periperi, aos dezesseis, acompanhando seu pai,
mudou-se algumas vezes para Valéria, Coutos e outros bairros próximos do
subúrbio ferroviário. Com dezoito anos tornou-se órfã de pai e antes que
percebesse, sua infância havia passado e já vivia a vida adulta.
Casou-se cedo, aos 23
anos, mais precedendo esse fato, teve seu primeiro filho, aos 21 anos. Seu primogênito
não vingou e faleceu ao nascer. A dor da perda e a tristeza foram grandes, mas
superada pela chegada de outros filhos, seis exatamente, os quais hoje se
orgulham se serem filhos de quem é, uma mulher forte e guerreira que dedicou
seus dias e noites para educar e sustentar seus filhos, enfrentando as inúmeras
dificuldades.
Ainda hoje carrega em
suas mãos as marcas feitas por seus instrumentos de trabalho. Em pé na beira de
um fogão, foram centenas de mulheres que passaram por sua sala, sentadas em uma
cadeira enquanto ela espichava seus cabelos com utensílios de ferro aquecidos
diretamente no fogo. Esse foi por muitos anos a principal fonte de renda de sua
família, porém sempre foi arranjado tempo, pois havia necessidade, e assim,
atividades como lavar roupas de ganho, fazer e vender geladinho e pipoca, foram
alguns dos muitos trabalhos informais que ela realizava para ajudar seu marido
e sustentar a casa após a morte dele.
Que sua vida foi dedicada
a cuidar da família, não há dúvidas. Quando criança, da sua mãe, quando jovem,
dos seus filhos e hoje, quando na sua melhor idade, de quem precisar de
cuidado.
De onde veio
Para conhecer melhor mais
sobre a história de Periperi, ninguém melhor para saber do que quem cresceu com
ele. E para isso, conto com a colaboração de minha avó ou Dona Magda, a senhora
que faz cabelo como muitos a conhece.
Ela morou por poucos
anos, até seus dezesseis anos, mas foi tempo suficiente para acompanhar de
perto mudanças significativas no desenvolvimento do bairro.
Em uma conversa agradável,
em que me orientei em uma entrevista semi-estruturada, ele relembrou com
saudades do tempo em que viveu no bairro, momentos bons e ruins, os quais
fizeram parte da construção de sua história.
“Eu
nasci e me entendi por gente em Periperi, mas meu pai é filho de Santo Amaro da
Purificação (...)” – ela se referi ao fato dele ser natural
da cidade de Santo Amaro da Purificação. – “ (...) Ele mudou-se para cá ainda moço em busca de emprego. Ele era
pataqueiro, fazia vários serviços diferente, trabalhava para ele mesmo. Tinha um
pequeno gado para transporte e só depois se tornou empregado da Leste”. Ela
narrou quando a questionei sobre como sua família chegou a Periperi.
Revivendo suas memórias
ela contou que na sua infância, nas décadas de 50 e 60, o bairro já não era
mais fazendas, porém também não era urbanizado, haviam algumas ruas e várias casas,
algumas ainda de taipa.
“No
fundo lá de casa passava um rio de água doce, o Rio Paraguari, ele cortava boa
parte de Periperi e se encontrava com o mar, era possível pescar nele, mas
depois foram aterrando para construir casas ao redor. Sabe aquele córrego que
quando passamos de ônibus dá para ver? ” - Me questiona e eu assinto
confirmando. “Então, hoje é só um esgoto
a céu aberto, mas José meu irmão já pescou ali”. Ela comenta sobre o Rio
Paraguari, o qual Periperi faz parte da Baia hidrográfica.
Aproveito o seu comentário
referente a pesca e lhe pergunto sobre a atividade de pescaria do local. “Nunca foi muito grande nessa região, tinha
alguns moradores que faziam, mas não era muito lucrativo”.
Sigo questionando-a como
era a economia. “ As pessoas não tinham
muitas condições (...)” – Refere-se a status econômicos dos moradores. – “(...) Muita gente trabalhava na Leste ou nas oficinas do trem. As
pessoas não eram ricas, mas todos compravam seu pedacinho de terra, que era
barato na época, ou moravam de aluguel, não é como hoje que tem esse negócio de
invasão. Nessa época era tão bom e não tinha tanta violência. ” Sua fala é
marcada por uma nostalgia de um tempo bom e ao mesmo tempo, demonstrava tristeza
pela atual realidade de violência que atinge o bairro.
Diante de suas constantes
citações sobre a Leste, a questiono sobre o que se trata e ela explica de forma
rápida que era uma empresa responsável pelas ferrovias, que além de realizar o transporte
de pessoas e outras coisas como cargas de mercadorias, também distribuía água
para moradores ao redor.
“Ela
ficava ali onde hoje estão as construindo os prédios da prefeitura. Não tinha
nada que cercasse aquele terreno, mas todo mundo sabia que era deles e ninguém entrava.
Ela ajudou muita gente. Foi muito importante para Periperi”.
Relata sobre a Leste – Viação Férrea Federal Leste Brasileiro, uma empresa que após
a intervenção do governo federal, em 1934, tornou-se responsável pela
administração das Ferrovias baianas.
Pergunto-lhe como era o
funcionamento desse trem. Ela declara que não era apenas um, como atualmente,
eles tinham diferentes linhas, uma que finalizava em Aratu e outra que ia até outras
cidades da Bahia como Alagoinhas. Ela ressalta ainda que apesar desse
transporte ser coletivo, não ajudava muita na mobilidade de quem morava em
Periperi e nos bairros próximos. Ela afirma ainda que, só houve uma maior
mobilidade quando foi construída a Avenida Afrânio Peixoto. “Só depois dessa avenida que a suburbana
começou a crescer, ficou mais fácil chegar até o centro da cidade, pois antes
tinha ônibus, mas não eram muitos, com essa avenida aumentou a quantidade de ônibus
que passavam e iam a mais lugares. Depois disso começou a chegar mais gente
para lá”. Ela fala referindo-se ao bairro.
“Eu
não demorei muito lá depois disso. Me mudei umas três vezes e voltava para lá,
depois daí só volto lá poucas vezes quando vou fazer algo no comercio de lá, ir
no medico ou no banco”.
Para concluir a
entrevista, peço para que ela diga sua percepção sobre como está o bairro hoje
em comparação aos anos em que viveu lá, e como ela imagina que estará daqui a
dez anos. “Eu acho que cresceu muito e isso é muito bom, hoje as pessoas tem
tudo o que precisa perto, água, saneamento básico, lojas. É muito mais fácil que
antigamente, mas a violência é terrível e nem se comparar ao que era. E eu não
sei se consigo imaginar muito com pode ser o futuro de Periperi. O jeito que
tudo foi construído, um em cima do outro, não dá para crescer mais. Tem casa e
construção para todo lado, para construir algo novo teria que derrubar alguma
coisa, pois não tem mais lugar”. E com essa percepção de quem acompanhou os
primeiros passos de Periperi e hoje não sabe mais onde ele pode chegar que concluímos
a nossa entrevista.





